
Foto: LSC
Retomando o gosto pela leitura.
O texto abaixo é do livro "Um cavalo no cemitério de Deus" do Jorge Cardoso.
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Sentado diante do computador, o editor de textos cheio, salvando como de costume – comendo batatas. De repente uma onda de calor sobe pelo pescoço. Consigo retirar o celular do bolso, mãos transformando-se em garras, e discar 112. Com a força que me resta ponho para baixo do tapete o quadro de Adolf Hitler. Não queria que aquele que fosse me ajudar se sentisse ultrajado. Carregaram o corpo e eu fiquei. Me levantei do chão e o clichê confere: estava desencarnando. Sem luz, nem tubos de luz, nem nada. Ainda vestido, tudo igual como antes, só que não conseguia mais interagir com aquilo que a física chama de matéria orgânica com quadrados cúbicos perpendiculares no cateto da hipotenusa. E também não consegui encaixar esta frase: “Mais feio do que um casal de velhos se beijando”. Como fantasma, descobri que o que me matou foi o zinco da batata e também poderia falar qualquer merda. Ninguém escutaria.
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Confesso que neste processo fiquei meio confuso. Tive pena do meu filho que chorou quando entrou na casa, e me surpreendi que depois de uma semana estava jogando futebol com o padrasto na rua aqui em frente, os via pela janela. Achando aquilo tudo tão entediante quanto estar às vezes vivo resolvi sair de casa. Abri a porta. Entrei e estava em casa outra vez. Abri a porta, dei dois passos e estava no corredor de casa outra vez. Não podia sair dali e não existia nenhuma força superior que me explicasse o porquê desta prisão.
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Fiquei, as minhas pernas atravessavam paredes. Não mijei uma única vez. Barulho de chaves, a trinca se abre. Uns homens de macacões levaram o computador, jogaram os meus livros dentro de uma caixa, começaram a arrastar uns móveis, e só corri atravessando um dos gorduchos quando, por puro instinto, o rapaz começou a enrolar o tapete.
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- Filho da puta, olha só isso aqui! – ele mostrava para um outro carregador o quadrinho do Adolf Hitler.
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Porra, que vergonha.
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Quando o meu último pertence foi retirado fiquei duas semanas em uma casa vazia. Aproveitei para dormir o que não tinha dormido em vida. Depois de duas semanas a porta se abre. Barulho. Primeiro surgem mais dois carregadores – desta vez magros, com a mesma roupa suja, depois um homem carregando caixas de papelão, e uma mulher muito bonita segurando um cachorro pela coleira que rosnava na minha direção.
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- Gostou? – pergunta o homem.
- Eu gostei da sala, mas ai, sinto uns arrepios – as mulheres são realmente mais sensíveis.
- Deve ser o radiador, amanhã peço para o síndico ver a temperatura do apartamento.
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Podem me chamar de babaca, mas o pior de se tornar um fantasma não é perder a capacidade de tocar ou sentir o mundo outra vez. O pior não é poder mais ler nem escrever, e tampouco escolher os livros que queres ler, nem a comida favorita. O pior é estar ali na sala e não poder controlar os canais da televisão! Não poder nunca mais escolher o programa ou o silêncio saídos do tubo de imagem. Nem o volume. Nem ficar vendo as barras coloridas na vertical para o ajuste eterno de cores. Eu agoniei.
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Depois de um tempo, coisa de vinte minutos, o casal começou a trepar. Tapei os ouvidos. Desta vez senti uns arrepios e logo em seguida a mesma queimação subindo pelo meu pescoço. Teto. Cai o pano. 9 meses. Tudo negro. Acordo em um túnel, me puxam, que gosto provado...e a primeira coisa que eu escutei antes de esquecer isso tudo foi:
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“Que bebezinho gordinho!”
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Voltei no colo da mulher bonita e do homem que controla a TV para a mesma casa. Eles, agora, meus pais.
Nunca mais vou querer morrer outra vez.




